O governo brasileiro autorizou o aumento do teor de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, mas as avaliações técnicas não incluíram testes de durabilidade. A decisão, baseada em análises de curto prazo, pode impactar especialmente os 4,7 milhões de veículos movidos exclusivamente a gasolina em circulação no país, segundo o Sindipeças.

Enquanto os 37,9 milhões de carros flex tendem a se adaptar à nova mistura sem grandes problemas, modelos mais antigos e importados são mais sensíveis. Carros dos anos 1990, projetados para até 22% de etanol, e veículos estrangeiros com injeção eletrônica sofisticada já apresentam falhas, como carbonização e danos em bicos injetores.

Oficinas especializadas relatam casos concretos. Um Mercedes-Benz GLC 2019, por exemplo, teve orçamento de R$ 11.169 para reparar velas, sensores e injetores danificados pelo combustível. A gasolina premium, com teor limitado a 25% de etanol, é alternativa, mas custa quase R$ 10 o litro em São Paulo, inviável para muitos motoristas.

Entidades como a Abeifa, que reúne importadores, criticam a falta de previsibilidade e pedem mais tempo para realizar testes de durabilidade. O presidente da associação, Marcelo Godoy, alerta que veículos podem parar nas ruas com motor quebrado. Apesar das reclamações, o fator econômico histórico pesa: a decisão anterior de redução do teor, em 1989, foi motivada pela escassez do biocombustível.

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a mudança sem exigir estudos de longo prazo. Na prática, o problema já existe: carros europeus e americanos, homologados para gasolina com baixo etanol, sofrem com a qualidade do combustível nacional. A indústria automotiva espera que o governo reavalie a medida antes que os danos se tornem ainda mais frequentes.