Deputados e senadores têm usado as chamadas emendas Pix para enviar dinheiro federal diretamente a prefeituras, sem necessidade de convênios ou projetos específicos. O mecanismo, de execução obrigatória, dá total liberdade aos prefeitos para decidir onde aplicar os recursos.

Em diversas cidades do interior, a verba tem sido destinada a shows e festivais, enquanto serviços essenciais como rede de esgoto, saneamento básico e educação seguem precários. Em alguns municípios, menos de 10% das residências têm acesso a coleta e tratamento de esgoto.

Dados oficiais mostram que cachês de artistas populares podem ultrapassar R$ 400 mil por apresentação — valor suficiente para construir dezenas de banheiros ou ampliar a rede de água em bairros inteiros. A contradição entre o luxo dos eventos e a carência da infraestrutura básica tem gerado críticas de especialistas em gestão pública.

Parlamentares e prefeitos justificam os gastos afirmando que festas atraem turistas, geram empregos temporários e movimentam a economia local. Defendem que lazer e cultura também são direitos da população e que a decisão sobre o uso do dinheiro cabe ao gestor municipal.

O governo federal, por sua vez, afirma que não pode interferir na destinação das emendas, já que a lei determina a transferência automática dos recursos. A falta de controle, no entanto, levanta questionamentos sobre a eficiência e a prioridade na aplicação do dinheiro público.