A guerra voltou a sentar-se à mesa da política internacional – não como exceção, mas como linguagem. Ela aparece nos tanques que redesenham fronteiras, nos drones que barateiam a destruição, nos cabos submarinos que se convertem em infraestrutura vulnerável, nos semicondutores tratados como ativos de soberania, nas sanções econômicas usadas como armas e nas narrativas que procuram vencer antes mesmo do primeiro disparo. O mundo não abandonou os tratados de paz, as organizações internacionais ou os discursos de cooperação. Apenas descobriu, outra vez, que eles têm menos força quando não são sustentados por poder.
Durante parte considerável do pós-Guerra Fria, consolidou-se a expectativa de que comércio, instituições multilaterais, direito internacional e interdependência econômica seriam suficientes para reduzir, progressivamente, a possibilidade da guerra. Era uma leitura kantiana do mundo: a paz como resultado racional da convivência entre Estados, sustentada por normas comuns, instituições estáveis e alguma confiança na força civilizatória do direito. Esse horizonte não desapareceu. Mas foi brutalmente limitado pela realidade.
Kant permanece necessário como ideal normativo. Clausewitz, porém, voltou a ser indispensável como chave de leitura. Em À paz perpétua, Kant imaginava uma ordem em que Estados submetidos a regras públicas tenderiam a substituir a guerra pela razão. Clausewitz, em Da guerra, partia de premissa mais dura: a guerra não é a negação da política, mas sua continuação por outros meios. Quando a negociação falha, quando a dissuasão não convence ou quando um ator calcula que pode alterar a realidade pela força, a política abandona a linguagem dos tratados e reaparece sob a forma da coerção.
O desafio brasileiro está em construir uma síntese madura: permanecer fiel à paz, ao direito internacional e à cooperação, sem ignorar que a política mundial voltou a ser atravessada pela força, pela coerção e pela competição entre vontades
O R23 preparou este resumo editorial com base nas informações públicas da fonte original, indicada ao final da matéria.






