Em 2021, o ministro André Mendonça escreveu o prefácio de um de nossos livros, A laicidade colaborativa brasileira. À época, ainda ocupava o cargo de advogado-geral da União e havia sido ministro da Justiça e Segurança Pública. No texto, Mendonça sustentou que a Constituição assegura ao cidadão religioso o direito de participar da esfera pública e política “com a mesma legitimidade de qualquer outro segmento”. E concluiu de maneira categórica: “inconstitucionalidade haveria justamente em tolher tal participação”.

Não imaginávamos que, cinco anos depois, aquelas palavras ganhariam contornos tão pessoais.

Na semana em que o Supremo Tribunal Federal mergulhou na mais grave e constrangedora crise de sua história, a fé evangélica de André Mendonça apareceu em um documento atribuído à inteligência da Polícia Federal. Não como direito fundamental ou dimensão legítima de sua identidade, mas como elemento utilizado para interpretar sua atuação institucional e estabelecer uma ligação suspeita com outra autoridade pública.

Crises imensas, às vezes, revelam-se em frases pequenas.

O R23 preparou este resumo editorial com base nas informações públicas da fonte original, indicada ao final da matéria.